Sobre crescer, mudar de vida e descobrir que algumas roupas já não contam a nossa história.
Você já abriu o guarda-roupa, olhou para todas aquelas roupas e teve a sensação de que não tinha nada para vestir?
Não porque faltassem peças. Na maioria das vezes, até sobra roupa.
O problema é que nenhuma parece combinar com a pessoa que você é hoje.
Aquela blusa que você adorava há cinco anos continua bonita, mas já não faz tanto sentido. O vestido que parecia perfeito para qualquer ocasião agora fica esquecido no cabide. E tem aquela calça que você guarda porque custou caro, embora não use há uma eternidade.
Talvez o problema não esteja nas roupas. Talvez você tenha mudado.
A vida muda antes do guarda-roupa
Pense em alguém que acabou de sair da faculdade.
Durante anos, sua rotina foi construída entre aulas, provas, estágios e encontros com os amigos. De repente, chegam o diploma, as entrevistas de emprego, os primeiros clientes e as novas responsabilidades.
É a mesma pessoa, mas ocupando um lugar diferente no mundo.
E aí surge uma dúvida que parece superficial, mas nem sempre é: como me vestir para essa nova fase sem parecer alguém que não sou?
Essa questão também despertou o interesse da pesquisadora Victoria Brown.
Em um estudo publicado em 2023, ela investigou como jovens adultos vivenciam a transição da faculdade para o trabalho e de que maneira as roupas participam da construção da identidade profissional.
Entre os participantes, apareceram o desejo de transmitir maturidade, a comparação com colegas e a preocupação em expressar a própria personalidade, mesmo no trabalho remoto.
Ou seja, não se tratava apenas de escolher roupas adequadas ao escritório. Havia também uma tentativa de descobrir como se apresentar naquela nova posição.
E acredito que essa experiência não se limita ao primeiro emprego.
Uma promoção, uma mudança de carreira, o início de um negócio ou até uma transformação pessoal podem provocar a mesma sensação: a vida avançou, mas a imagem parece ter ficado alguns passos atrás.
As diferentes versões de nós mesmas:
Outra pesquisa, realizada por Alison Guy e Maura Banim, investigou a relação de 15 mulheres com suas roupas.
As pesquisadoras identificaram três perspectivas que conviviam nas escolhas de vestuário: a mulher que sou na maior parte do tempo, a mulher que gostaria de ser e aquela que tenho medo de me tornar.
Achei essa ideia especialmente interessante.
Porque, quando pensamos bem, nosso guarda-roupas costuma guardar um pouco de cada uma delas.
Há roupas que representam nossa rotina. Outras foram compradas imaginando uma vida que ainda não chegou. E algumas continuam ali por lembrança, culpa ou dificuldade de encerrar uma fase.
É quase um álbum de fotografias, só que pendurado em cabides.
O problema começa quando tentamos vestir diariamente uma versão de nós mesmas com a qual já não nos identificamos.
Não é sobre comprar mais roupas
Talvez você esteja pensando que a solução seja renovar o guarda-roupa inteiro. (Mulheres afobadas, levantem a mão ✋ kkkkkkkk)
Mas não necessariamente.
Antes de sair comprando, vale entender o que mudou? Sua rotina? Seus objetivos? Os ambientes que frequenta? A maneira como deseja ser percebida? Ou simplesmente o seu gosto?
É justamente nessa investigação que a consultoria de imagem pode fazer diferença.
Ao contrário do que muita gente imagina, o trabalho não precisa começar em uma loja. Pode começar diante do próprio armário, tentando compreender por que tantas peças deixaram de funcionar.
A consultoria ajuda a identificar preferências, necessidades e possibilidades de expressão pessoal. A ideia não é construir uma personagem profissional, mas encontrar uma imagem coerente com a vida real.
Porque não adianta ter um guarda-roupa impecável para uma rotina que você não vive. 🤷🏻♀️
Também não faz sentido vestir uma versão supostamente mais madura de si mesma se, para isso, precisar abandonar tudo aquilo de que gosta.
Quem você quer ser daqui para a frente?
Talvez algumas roupas antigas ainda façam sentido. Outras podem ser adaptadas. E algumas simplesmente cumpriram seu papel e tá nas hora de desapegar…
Não precisamos descartar toda a nossa história para começar uma fase nova.
Mas também não precisamos continuar vestindo escolhas que já não nos representam.
Gosto de pensar que a imagem pessoal não é algo que construímos uma vez e deixamos pronto para sempre. Ela pode acompanhar nossas mudanças, nossas descobertas e até nossas contradições.
E, se você anda sentindo que existe uma distância entre quem se tornou e o que vê no espelho, talvez valha a pena olhar para isso com mais atenção.
Antes de perguntar o que está faltando no seu guarda-roupa, experimente perguntar: quem sou eu hoje e como quero me apresentar ao mundo?
Pode ser que a resposta não esteja em uma roupa nova, mas em aprender a olhar para as que você já tem.
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Este artigo integra a série sobre imagem, comportamento e identidade da Muitaz. Na Zahira, a consultoria de imagem parte dessa mesma ideia: compreender a pessoa antes de pensar nas roupas.
Referências
BROWN, Victoria. Navigating identity formation via clothing during emerging adulthood. Journal of Fashion Marketing and Management, 2023. https://doi.org/10.1108/JFMM-01-2023-0019
GUY, Alison; BANIM, Maura. Personal Collections: Women’s clothing use and identity. Journal of Gender Studies, v. 9, n. 3, p. 313–327, 2000. https://doi.org/10.1080/713678000








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