Eu tenho o hábito de viajar sozinha e já passei por todo tipo de perrengue.

Já perdi voo. Já perdi ônibus. Já reservei hotel que não existia. Já quebraram minha mala todinha no aeroporto. Já extraviaram minha bagagem e eu mesma tive que encontrá-la no aeroporto de Guarulhos. Já precisei pedir hospedagem para amigos. E já viajei 38 horas de ônibus porque perdi um voo de madrugada — quem nunca, né?

Enfim, perrengue viajando sozinha não é exatamente uma novidade na minha vida.

Mas passar mal, NUNCA!

Nem por comer alguma coisa estragada ou que me fizesse mal. 

Com o álcool, raríssimas vezes e, graças a Deus, sempre acompanhada de algum amigo. Quando estou forever alone, sou muito cuidadosa para não morrer sozinha.

Até que fui comemorar meu aniversário deste ano em uma vinícola, em Bento Gonçalves. Eu estava hospedada em Porto Alegre e fiz um bate e volta só para passar o dia por lá.

Comprei dois rolês: um almoço tipicamente italiano e uma degustação harmonizada de vinhos.

Almocei rapidinho, experimentei um pouquinho de cada coisa e fui para o tour. O que eu queria mesmo era a degustação (DE VINHOS).

Isso foi tudo que tentei comer, comida boa demais 🤌🏼

Cheguei alguns minutos antes e, até aí, tudo LINDO.

Inclusive, eu estava vivendo meu recém-inaugurado projeto de blogueira, com meu Holyland, descendo as escadas e gravando tudo kkkkkkkkkkkkk. Pleníssima.

O guia começou contando a história da família, como havia começado a produção dos vinhos, falou sobre as garrafas, os processos… muita construção de repertório.

E foi ali que comecei a sentir um calor absurdo.

Detalhe: era inverno no Sul.

Eu estava de jaqueta de couro e cachecol, mas não estava tão agasalhada a ponto de justificar aquele calor. Tirei a jaqueta. Continuei passando mal.

Minha pressão é baixa e cai com certa frequência, então eu conheço muito bem os sinais. Eu sabia o que estava acontecendo com o meu corpo.

Só não estava entendendo por quê?

Eu tinha almoçado. Pouco, mas tinha. Inclusive, tinha comido uma carne grelhada que achei bem salgada. Na minha cabeça, não fazia o menor sentido minha pressão estar caindo.

E aí começou a minha batalha espiritual.

Porque, em vez de simplesmente avisar que estava passando mal, eu continuei em pé acompanhando o tour.

(Só escrevendo isso agora eu tenho a real dimensão da resistência que foi esse ato kkkkkkkkkkkkk.)

Enquanto o homem explicava os vinhos, eu tentava discretamente jogar meu corpo um pouquinho para trás para ver se encontrava alguma parede onde pudesse me apoiar.

Não tinha parede.

E eu ali, firme, fingindo naturalidade enquanto meu corpo claramente estava avisando que ia desligar.

Até que chegou um momento em que eu percebi: eu vou desmaiar.

Resolvi fazer o caminho inverso para voltar ao hall e sentar. Só que eu não consegui chegar até o hall.

Tive que sentar na escada mesmo.

E foi ali, sozinha, sentada numa escada no meio de uma vinícola em Bento Gonçalves, que comecei a respirar fundo e orar.

“Deus, por favor, não deixa eu passar mal aqui. Não deixa eu morrer aqui sozinha, longe de casa e distante até de uma cidade.”

Dramática? Talvez. 🦁

Mas, naquele momento, eu realmente estava com medo.

E acho que foi ali que percebi uma vulnerabilidade de viajar sozinha que nunca tinha experimentado.

Porque eu já tinha passado por um monte de coisa e sempre dei um jeito.

Mala a gente procura. Voo a gente remarca. Ônibus a gente pega outro. Hotel que não existe a gente resolve. Se precisar, liga para um amigo, muda o roteiro, gasta um dinheiro que não queria gastar e segue viagem.

Mas, quando é o seu próprio corpo que resolve não colaborar, a sensação é diferente.

Você percebe que não tem ninguém por perto que conheça você de verdade, que reconheça seus sinais antes mesmo de você conseguir explicá-los e que saiba exatamente como cuidar de você, que te pega pela mãozinha e diz que “vai ficar tudo bem”.

Naquele momento, era eu comigo mesma.

Fiquei sentada uns dez minutos, respirando, até me sentir bem o suficiente para voltar.

E voltei, obviamente, porque aparentemente eu precisava muito conhecer o processo de fabricação daquele vinho kkkkkkkkkkkkk.

Depois disso, toda oportunidade que aparecia de encostar numa parede, eu encostava. Se tinha onde sentar, eu sentava. Ainda não estava me sentindo completamente bem, mas fomos andando bastante, conhecendo os processos da vinícola e, aos poucos, meu corpo voltou ao normal.

Quando finalmente chegamos à degustação, eu já estava bem.

Provei os vinhos, comi os acompanhamentos, aproveitei a experiência e foi incrível 🤩.

No final, deu tudo certo. Comemorei meu aniversário exatamente do jeito que queria, conheci uma vinícola, aprendi um monte sobre vinhos e ainda descobri uma vulnerabilidade de viajar sozinha que, depois de tantos anos, eu nunca tinha experimentado.

Eu sempre associei viajar sozinha à liberdade. Naquele dia, descobri que a vulnerabilidade também faz parte dela.

Peeeeenseeeeem num perrengue chique.

Não posso nem contar isso pra minha mãe. Kkkkkkkkkkkkk.

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Eu sou a Briane

Se você também gosta de ler com calma ou com a alma, seja bem-vindo! Tenho dificuldade em escolher um assunto favorito porque gosto de muitos. Viajo sempre que posso. Fotografo mais do que deveria. Já fiz receitas maravilhosas e outras completamente desastrosas. Sou apaixonada por moda, cafés, boas conversas e por tudo o que é belo. Criei este espaço porque não aguento mais a ideia de que preciso falar sobre um determinado assunto em um formato viral para que o algoritmo o entregue. Aqui, cada texto existe porque eu escolhi compartilhar o que sinto. Espero que você encontre por aqui alguma história, pensamento ou ideia que também faça sentido para você. 🤍

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